sábado, 26 de setembro de 2009


Traço linhas obliquas no céu com um lápis cor de fogo. Passagens vertiginosas para anjos despistados, estradas acompanhadas de música serena, serena assim como eu.

No fundo da trilha criei uma porta. Forrei-a com flores, rosas para que nunca ninguém se esqueça dos espinhos da vida que passou. Desenhei uma lua incerta, porque as minhas mãos ainda tremem por causa do passado, para que todos se lembrem da inconstante incerteza das noites mal fadadas, dormitadas em cima de um parapeito demasiado infernal. O que há depois da porta? Nem eu sei. Acho que cada um de nós decide aonde vai dar. Ao mar, ao paraíso, ao inferno, a um bar mal frequentado onde as garrafas estão sempre vazias e cheias, onde o fumo e a neblina encobrem a cara dos visitantes. A todos os lados, ao quarto do filho que se deixou para trás, á porta de casa onde se foi feliz, ao café onde demos o primeiro beijo, ao silêncio do quarto, á escuridão de um beco, a uma praia de sol e lua, todos os lugares menos á terra que conhecemos e onde éramos seres físicos.

Talvez muitos não queiram passar pela porta, e prefiram a estrada que criei com a ajuda de dois dedos de imaginação. Talvez alguma menina perdida se sente num dos três bancos com rasgos de Março que teci. E lá fique, a ver os outros a passarem, os homens de coração, os que nunca nasceram com ele, os que tropeçaram e voaram, os que tombaram cedo de mais. Colei no céu quinze estrelas para que iluminassem as noites sombrias, e duas mil e sete velas de cera e resignação.

Ficar ou passar, a escolha mais importante de sempre. Criei tudo a um tamanho pequenino para que eu não possa passar. Porque afinal, a escolha é sempre nossa.

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